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sábado, 2 de agosto de 2014

"Hannah Arendt" foca nas polêmicas da célebre pensadora alemã.

Cena do filme "Hannah Arendt", sobre a filósofa que acompanhou o julgamento do nazista Adolf Eichmann em Israel. A cinebiografia foca no período em que Hannah escreveu à revista "The New Yorker" para contar o que viu no tribunal. Os relatos foram reunidos em 1963 no livro "Eichmann em Jerusalém", no qual a escritora descreve um dos mais temidos carrascos nazistas, idealizador da "Solução Final", termo que alude ao extermínio de judeus durante a Segunda Guerra Mundial. (Fonte da Imagem: Ensaios Ababelados)

Uma das diretoras mais prestigiadas do Novo Cinema Alemão, pertencente à mesma geração que revelou Wim Wenders e Volker Schlondorff, Margarethe Von Trotta compõe um admirável perfil de uma personalidade e de uma época no drama Hannah Arendt. O filme estreia em São Paulo.
Aliando-se, mais uma vez, a Barbara Sukowa, intérprete habitual de seus filmes, como os premiados "Rosa Luxemburgo" (86) e "Os Anos de Chumbo" (81), a cineasta entrega-se ao desafio de retratar uma das pensadoras políticas mais importantes e influentes do século 20, autora de clássicos como "As Origens do Totalitarismo".
Escapando ao risco de comprometer a narrativa com um excesso de teorias, escolhe como foco um episódio crucial na vida de Hannah. Em 1961, a filósofa alemã, já radicada nos EUA, viaja a Israel para acompanhar um dos julgamentos mais bombásticos de todos os tempos, do carrasco nazista Adolf Eichmann, capturado pelo serviço secreto israelense na Argentina.
Partindo de uma peça da norte-americana Pam Katz, corroteirista do filme ao lado de Von Trotta, a história humaniza por todos sua protagonista, sem banalizar seu pensamento nem sua atividade. Hannah é vista discutindo com seus alunos na universidade, e também com seus amigos intelectuais, em concorridas festas em seu apartamento, em que, ao lado de temas polêmicos, nunca faltavam piadas, nem bebida ou cigarros.
O nazismo está no centro das discussões. Primeiro, na atuação de Hannah, ao cobrir o julgamento de Eichmann para a revista "The New Yorker", que lhe permitiu criar uma das teses mais polêmicas de toda a sua obra, sobre a "banalidade do mal".
O segundo, menos abordado no filme, lembra seu relacionamento com o mestre e ex-amante Martin Heidegger (Klaus Pohl), filósofo que se filiou ao Partido Nazista em 1933 e nunca se retratou da atitude após o fim da Segunda Guerra - para desgosto de Hannah, que era judia alemã e fugiu do país natal após a ascensão de Hitler ao poder.
Enxergando em Eichmann apenas um burocrata medíocre, cumpridor cego de ordens, recusando-se a ver um monstro de índole diabólica, e não se omitindo em apontar o que considerava como cumplicidade dos chamados Conselhos Judaicos na destruição de sua própria comunidade, Hannah atraiu a fúria dos próprios amigos e dos círculos judaicos. Muitos nunca a perdoaram pela ousadia. Para eles, ela estaria "defendendo" o carrasco, o que sempre negou.
Nada disso abalou a filósofa, que publicou seus artigos na "The New Yorker" - onde também sofreu pressões - e, dois anos depois, um livro que teve grande repercussão, "Eichmann em Jerusalém".
Vendeu na época mais de 100 mil exemplares e, ao longo dos anos, serviu como ferramenta para que jovens alemães contestassem seus pais, por terem conhecimento dos desmandos nazistas e se omitirem, e também em revoltas contra a guerra do Vietnã e o uso da energia atômica.
O filme ressalta a coragem de Hannah que, apoiada por amigos como a escritora Mary McCarthy (Janet McTeer), resistiu, mantendo sua independência de pensamento, ainda que a um alto custo pessoal. Os ataques sofridos, para ela, equivaleram a um "novo exílio", como salientou a diretora Margarethe Von Trotta em entrevista ao jornal "The New York Times".
Procurando não tomar partido da tese defendida por Hannah nos artigos e livro sobre Eichmann, o filme sem dúvida abraça a integridade pessoal e intelectual de sua fascinante protagonista. E permite aos espectadores participarem de uma envolvente discussão de ideias, apesar de um filme não ser o veículo ideal para esgotar temas tão profundos. Mas, certamente, pode despertar uma saudável curiosidade sobre as obras da autora.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Após a revolução, resta o problema dos revolucionários.

‘Depois de maio’ (2012), filme dirigido por Olivier Assayas, procura apresentar a trajetória de uma miríade de jovens franceses três anos após a tormenta de maio de 68. A contracultura já disputa a hegemonia com os valores tradicionais de modo acirrado. - Flávio Ricardo Vassoler. (Fonte da imagem: Ne10 - Uol

“Após a revolução, resta o problema dos revolucionários”. Tal máxima (cínica) atribuída ao ditador fascista Benito Mussolini ressoa as contradições pelas quais passam os movimentos revolucionários que conseguiram chegar ao poder. Nesse momento, a acepção etimológica da palavra revolução vem à tona: revolução, o movimento que se volta contra si mesmo. A manutenção do poder pressupõe um refreamento do ímpeto contestatório. Benito Mussolini, leitor de Nicolau Maquiavel, sentencia que, da tomada para a manutenção do poder, a revolução se transforma em Realpolitik. 
O que teria acontecido ‘Depois de maio’ (2012)? O filme dirigido por Olivier Assayas procura apresentar a trajetória de uma miríade de jovens franceses três anos após a tormenta de maio de 68. A contracultura já disputa a hegemonia com os valores tradicionais de modo acirrado. Os revolucionários dos mais diversos matizes – desde os hippies pacifistas até os incendiários Molotov – vivem em suas comunidades alternativas e começam a influenciar sobremaneira a mutação dos valores e práticas ossificados. A princípio, a contracultura de fato parece ter revelado que há sempre praias sob os pisos bem encerados dos shoppings. Crescei e multiplicai-vos: o nudismo e o poliamor fazem com que os amantes usem alianças, simultaneamente, nos anelares esquerdos e direitos. Os cabelos longos e as barbas por fazer já não se preocupam com as entrevistas de emprego. “Estamos ébrios de revolução!” A psicodelia parece romper com o tempo da rotina estrita e heterônoma, o tempo do trabalho. Mas mesmo maio de 68 teve que encarar o dia 1º de junho: segunda-feira. 
O que acontece quando os gritos de ordem espraiados pelas ruas de Paris começam a se transformar em pichações cada vez mais silenciosas? Pichações que precisam ser feitas na calada da noite, uma vez que um espectro ronda a Europa depois de maio, o espectro da polícia. O poliamor e os brados por mais liberdade sexual de fato promoveram uma profunda transvaloração dos costumes em vastas camadas da sociedade ocidental. Mas seria possível entrever uma arregimentação da poligamia pelas atuais casas de swing? Sexo grupal entre quatro paredes com hora, local e preço para acontecer. O swing dá sobrevida à agonizante relação monogâmica. 
O que acontece quando a criatividade psicodélica de ontem começa a municiar a indústria publicitária depois de maio? A contracultura começa a se tornar cotidiana. (O cotidiano, vale lembrar, não foi tomado de assalto pela revolução.) A contracultura começa a se tornar a cultura que dita contra o que os cidadãos devem se postar. Os cálculos de rentabilidade do capital percebem que a contracultura estimula a produtividade dos funcionários que já não precisam vestir gravata e das funcionárias que, vez por outra, nas sextas-feiras, podem descortinar as pernas. O horário de trabalho flexível – faça sua rotina! – remove a figura exterior do ponto que deve ser batido, respectivamente, às 8h e às 18h, para transferir o princípio de coação do horário para dentro de nossas cabeças. O home office transporta o trabalho para dentro de casa, traz a premência do relatório para a escrivaninha ao lado da cama, sonhamos com as planilhas e os planos de meta. Depois de maio, o pesadelo. 
Maio de 68 entoou com novos cânticos o mantra “Louvado seja Deus”: o LSD de fato elevou Hosana às alturas. Jesus Cristo, mais um barbudo esquálido no acampamento de Janis Joplin. Depois de maio, a psicodelia lisérgica dá lugar à felicidade prescrita diariamente por 5 mg de Prozac. Quando a revolução começa a se confundir com a Realpolitik; quando a depressão passa a ser o sintoma socialmente prescrito, ou pior, administrado, Janis Joplin já ocupa o ranking do videoclipe mais badalado pelos espectadores da MTV. 
Que fazem os jovens franceses depois de maio? (Na periferia brasileira do capitalismo, não há dúvidas: em 1968, o Ato Institucional nº 5 decreta que lugar de estudante de classe média é na escola e na universidade; apenas os militares podem exorbitar a lógica dos quartéis.) Os jovens não sabem o que fazer. Como maio via de regra dá lugar a junho, a revolução ainda não conseguiu descobrir a poção de Peter Pan: os jovens terão que trabalhar. Karl Marx terá que aparar a barba, Friedrich Engels voltará a administrar suas empresas. Mas a dor não é facilmente extirpável: para os jovens que efetivamente viveram o prenúncio de uma sociedade reorganizada sobre bases radicalmente outras, a impossibilidade de prosseguir com o ímpeto de maio leva às últimas consequências as mais diversas rupturas. O suicídio tenta cristalizar um passado que já não se pode resgatar – passado que o LSD diz escorrer entre os dedos. As ações revolucionárias – roubos a banco, sequestros e que tais – municiam a propaganda anti e contrarrevolucionária para que o pater familias e a dona de casa continuem a fazer o Pelo Sinal antes do jantar. O mercado de trabalho, ao fim e ao cabo, apresenta-se como o corredor polonês depois de maio. 
Quando a contracultura é apropriada pela reação e passa a rechaçar a revolução – ou pior, quando a revolução transforma-se em espetáculo –, os jovens mais lúdicos encontram fileiras nos bastidores circenses dos filmes de Federico Fellinni; os menos aquinhoados buscam trabalho no entretenimento autoritário de Hollywood; ao fim e ao cabo, os mais pragmáticos endossam o exército publicitário. Os aforismos de outrora viram slogans depois de maio. Nesse sentido, o diretor Olivier Assayas soube captar com a argúcia a nostalgia de Pasárgada: a revolução que poderia ter sido, mas não foi lega cicatrizes e cooptações aos outrora revolucionários que agora precisam continuar a continuar. 
(Fonte: Carta Maior, Flávio Ricardo Vassoler)